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PROFESSOR, A LUA NÃO TEM QUATRO FASES!      

Rodrigo Moura

            Meu nome é Rodrigo Moura. Na época em que se passa essa história, eu era estudante do Colégio de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (CAP), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Além das aulas normais, eu freqüentava o Programa de Iniciação Científica Júnior, um projeto desenvolvido pelo colégio em conjunto com a Universidade que aprofundava os conhecimentos dos estudantes em alguma ciência, à sua escolha. A ciência que escolhi foi Eletromagnetismo.

Na época dessa história, o CAP estava sediado na própria UERJ, o que muito facilitava o meu acesso ao programa. Tive aulas com o professor João Batista Garcia Canalle, que era físico com doutorado em astronomia e, além das aulas de eletromagnetismo, também me ensinou um pouco de astronomia, em especial as fases da Lua.

É necessário dizer desde já que, ao contrário do que muita gente pensa, a Lua não tem quatro fases (nova, quarto crescente, cheia e quarto minguante). Isso porque “fase” não quer dizer, em termos físicos, “período”, e sim “aparência, aspecto”. Como durante o mês a Lua apresenta diferentes aspectos toda noite, ela tem bem mais do que quatro fases. Pois bem, esse fato valeu-me um episódio muito interessante no colégio.

            Era o dia 6 de agosto de 1998, uma quinta-feira. Às 8 horas e 40 minutos, meu professor de óptica entrou na sala e começou a dar a sua aula.

- Hoje começarei a aula explicando para vocês a diferença entre sombra e penumbra.

            Com um giz ele fez um esquema sem escala no quadro-negro no qual mostrava um corpo esférico opaco sendo iluminado por uma fonte de luz. Traçou os raios de luz tangentes a  esse corpo, que terminavam num anteparo atrás do mesmo.

- Sombra é a região totalmente escura causada pelo bloqueio completo dos raios de luz; já penumbra é a região parcialmente iluminada.

            Após mais algumas explicações, ele começou a dissertar sobre alguns fenômenos celestes:

- Vocês sabem como ocorrem o eclipse solar e o lunar? O solar ocorre quando a Lua se coloca entre o Sol e a Terra; já o lunar ocorre quando a Lua entra no cone de sombra da Terra. Vocês poderiam perguntar: porque não temos um eclipse lunar todo mês? É porque o plano de translação da Lua ao redor da Terra está inclinado em relação ao plano de translação da Terra em torno do Sol. Apenas quando a Lua está na intersecção desses planos é que ocorre o eclipse.

Uma explicação sucinta, mas corretíssima. Depois ele continuou, fazendo no quadro-negro um esquema da Lua orbitando em torno da Terra durante um mês:

- Vou explicar agora as fases da Lua: a Lua completa uma volta em torno da Terra a cada 28 dias, mais ou menos. Cada fase da Lua dura uma semana, ou seja, a lua tem quatro fases: nova, quarto crescente, cheia, quarto minguante.

Uma de minhas obrigações como participante do Programa de Iniciação Científica era divulgar o conhecimento. Não fiquei, portanto, calado frente a um ensinamento incorreto. Canalle havia feito questão que eu aprendesse as fases lunares e eu não poderia deixar passar essa oportunidade de transmitir um conhecimento aos outros.

- Professor, quer dizer então que temos sete noites de lua cheia por mês?

Senti que ele achou um pouco estranho eu fazer uma pergunta cuja resposta ele devia achar óbvia, mas mesmo assim ele me respondeu com muita naturalidade:

- Exatamente, temos sete noites de lua cheia por mês.

- O senhor então vê sete luas cheias consecutivas todo mês?

Ele pareceu um pouco desnorteado com a pergunta, mas respondeu sorrindo:

- Claro, rapaz!

Francamente, não esperava que ele me desse essa resposta, mas continuei:

- Não, isso eu não acredito que o senhor veja. Professor, pense bem: o senhor vê sete noites de lua cheia, sete noites de quarto minguante, sete noites de lua nova e sete noites de quarto crescente todo mês?

- Rapaz... mas... mas de que planeta você veio?? Você é marciano por acaso??

A turma caiu na gargalhada, mas continuei. Afinal, eu tinha que fazer valer o ensinamento que o Canalle me deu:

- Professor, o senhor vê sete noites de lua cheia estando a Lua TOTALMENTE CHEIA?

- Vejo, ora!

- Não, é impossível! O senhor não pode ter prestado atenção no céu, do contrário não me diria isso! O senhor quer me dizer então que a Lua tem quatro fases?

Tanto ele quanto a turma inteira riram da minha pergunta.

- Ora, mas é claro! - ele falou isso entre risos - Por quê? Para você quantas fases tem a Lua?

- A Lua tem cerca de vinte e oito, vinte e nove fases, professor. Aliás, cada noite do mês corresponde a uma fase.

- Ah, não, você é lunático! Você veio de um outro planeta!

Mais risos. Parecia que eu era o palhaço da turma. Mudei a pergunta:

- Qual... qual é a sua concepção de fase?

Ele não me respondeu. Ficou olhando para mim esperando pela resposta.

- Fase quer dizer “aparência”. Se o senhor observar a Lua, verá que ela nunca fica igual duas noites seguidas. A lua cheia só está realmente cheia uma única noite. Depois o lado dela oculto para nós já começa a ser iluminado pelo Sol e ela não pode refletir a luz solar para a Terra; por isso eu digo que a Lua tem 28 fases, é porque a cada noite ela apresenta um aspecto para nós.

- Ah, grande explicação! Da mesma forma eu posso dizer que o verão só é verão no primeiro dia, porque depois ele está acabando e o outono já vai chegar!

A turma não desperdiçou esse raciocínio e começou a brincar:

- A gente começa a morrer desde o dia em que nasce!

- O fim de um dia é o começo de outro!

Aí eu não agüentei. Não queria, mas tive que apelar para a autoridade do meu professor:

- Sabe por que eu estou falando tudo isso?

- Por quê?

- Não sei se o senhor sabe, mas eu faço parte do Programa de Iniciação Científica e o meu professor, além de ser físico, também é astrônomo.

Silêncio total na sala. Continuei:

- Eu tive muita sorte em conhecer um professor de física que também é astrônomo, sabe? A minha atividade oficial no programa não incluiu astronomia, mas ele fez questão de me ensinar os fenômenos celestes elementares e eu sou muito grato a ele por isso.

Silêncio.

- Recentemente ele escreveu um artigo intitulado “A Lua tem quatro fases?”. Esse artigo foi publicado no jornal COSMOS, o mais importante jornal divulgador de astronomia no Brasil.

Silêncio.

- Nesse artigo ele critica os livros didáticos de geografia, que definem fase como sendo um período de sete dias em que a Lua apresenta sempre o mesmo aspecto, o que, é claro, não corresponde à realidade e costuma confundir os estudantes observadores. A melhor definição para fase é o “aspecto que apresenta um astro sem luz própria, planeta ou satélite, segundo as condições de observação da Terra”. Portanto, professor, a Lua tem 28 fases. Devo ressaltar, entretanto, que ela só apresenta essas fases a olho nu, pois se ela for observada por uma luneta ou um telescópio, pode-se ver a sombra avançando progressivamente sobre sua superfície, isto é, de maneira ininterrupta.

- Quem... quem é o seu professor? É o ... é o Mourão?

Para ele me fazer essa pergunta, ele devia estar me achando um “crânio” em astronomia (coisa que eu não era). É claro que eu não podia ser aluno do Mourão.

- Não, não, o Mourão é um dos mais famosos astrônomos brasileiros, eu não o conheço, nada tenho a ver com ele. Meu professor é o Canalle. Ele leciona aqui mesmo na UERJ. O senhor o conhece?

- Não... mas deixe-me dizer-lhe uma coisa: o que eu ensino aqui é Óptica, não é Astronomia. Isso tudo que você me falou não passa de detalhes, meros detalhes. Eu não ensino detalhes de astronomia em óptica.

- Professor, à primeira vista isso até pode parecer um detalhe, uma questão de semântica... mas não é não. Os livros de geografia vão passar brevemente por uma grande revisão e é melhor todos se prepararem para não estranharem quando lerem que a Lua muda de fase a cada noite. Sabe... o Canalle faz parte do MEC[1].

Silêncio.

- Eu contei essa história a título de curiosidade... se o senhor quiser, na próxima aula eu posso trazer o artigo do Canalle para o senhor ler.

- Bem... então... então me desculpe por tudo... Traga... traga o artigo sim, eu gostaria de lê-lo.

***

           

Na aula seguinte, levei o artigo e mostrei-o a ele. Ei-lo:

A LUA TEM QUATRO FASES?

João Batista Garcia Canalle – Instituto de Física - UERJ

                “É do conhecimento popular que a Lua tem quatro fases: cheia, quarto minguante, nova e quarto crescente, pois é assim que é ensinado no primeiro grau. Como a maioria da população brasileira tem apenas este nível de ensino, podemos dizer que isto é um conhecimento popular. Eu também aprendi isso quando passei pelo primeiro grau, mas nunca entendi direito essa explicação, pois, afinal, eu não via sete noites de lua cheia no céu, nem sete noites de lua quarto crescente ou de quarto crescente. Via, sim, a cada noite, uma Lua ligeiramente diferente da Lua da noite anterior. Quanto à lua nova, não tinha certeza. Talvez houvesse mesmo sete noites de lua nova, pois nessa fase ela era invisível mesmo e eu nunca tinha reparado se, de fato, ela ficava sete noites sem aparecer. Talvez minha professora do primário tenha feito outras considerações sobre as fases da lua, mas não me lembro delas, exceto que a Lua tem quatro fases.

                Recentemente, analisando conteúdos de astronomia de livros didáticos de ciências e de geografia do primeiro grau, entendi a origem da confusão que me perseguiu por alguns anos e que, creio, persegue a muitos que não tiveram oportunidade posterior de entender as fases da Lua.

                Os livros didáticos normalmente definem as quatro fases da Lua e mostram figuras ou fotos das mesmas. Em seguida associam a cada fase um período com cerca de sete dias. Assim sendo, temos: fase da lua crescente (ou do quarto crescente) são as sete noites que se seguem à noite de lua nova; fase da lua cheia são as sete noites seguintes àquela em que vemos um quarto da superfície da Lua iluminado e este virado para Leste; fase da lua minguante são as sete noites seguintes à de lua cheia e, finalmente, fase da lua nova são as sete noites seguintes à noite em que vemos um quarto da superfície da Lua iluminado e este virado para o Oeste. (...)

                O que deveria ser ensinado é que toda noite vemos uma fração diferente da face iluminada da Lua e que temos quatro noites para as quais damos nomes especiais para a parte visível dela, que são as noites de lua cheia, quarto minguante, nova e quarto crescente. Fora essas noites especiais, temos apenas um período de lua crescente (que vai da nova até a cheia) e outro de lua minguante ou decrescente (que vai da cheia até a nova) como definido no Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica de Ronaldo R. F. Mourão, Ed. Nova Fronteira, 1987; sendo que em cada noite a aparência dela é ligeiramente diferente daquela observada na noite anterior. Assim sendo, não teríamos 4 fases para a Lua, mas sim cerca de 29 fases, uma para cada noite e apenas dois períodos: um crescente e outro minguante. Com isso, creio que causaríamos menos confusões no entendimento dos alunos. (...) “

            Quando ele terminou de ler o artigo, exclamou:

            - Ótimo texto! Ele explicou a questão muito bem! Pode me emprestar o artigo para eu tirar uma xérox?

            - Claro, professor. Fique à vontade.

***

            Essa história, verídica em tudo, prova como os livros podem fazer com que percamos a capacidade de observar a veracidade das suas explicações. É impressionante como na descrição de um fenômeno tão cotidiano tal qual as fases da Lua, e portanto, sujeito ao alcance de todos, poucos se dão ao trabalho de procurar comprová-lo. E quando alguém se dá conta que o que lhe foi ensinado durante anos era deficiente, errôneo, é muito difícil convencê-lo do contrário.

Em compensação, essa história também é uma bela prova da racionalidade do ser humano, e da capacidade dele de se ajustar a novos conhecimentos. Meu professor de óptica, sendo um homem de mente aberta, não se prendeu ao que provavelmente lhe foi por anos ensinado. É bem verdade que ele não aceitou de imediato o que eu falei, mas isso é compreensível: nenhum cientista no mundo que se preze aceita um fato ou uma interpretação nova se tais não estiverem apoiados em sólidos argumentos, em experiências sérias, bem feitas. Meu professor teve interesse em ler o artigo e analisá-lo. Não sentiu vergonha. Afinal, viver é aprender. E ele sabia disso. Como seria maravilhoso se todos também o soubessem.

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[1] Ministério da Educação e do Desporto.

Sobe